Cavoucando meus arquivos, encontrei a primeira versão de um livro que escrevi chamado “O Homem que Não Temia Morrer”. É um livro bem legal, tanto que irei reescrevê-lo. Só que história legal todo mundo tem; uma história bem contada, não. E definitivamente esse meu livro estava mal contado.
O erro que cometi (teve muitos) mais grosseiro aconteceu nos três primeiros capítulos. Foi mais ou menos assim: meu personagem saía de casa, encontrava a mulher da vida dele, e eu começava a escrever como eles se conhecerem, o romance todo, o primeiro beijo, blábláblá; depois eu voltava à cena, ele se despedia dela, andava, avistava o seu inimigo e pronto, história do inimigo, como ele veio parar na cidade, o que fez de ruim, blábláblá. Era assim, uma cena, corte, flashback, volta à cena, outro corte, flashback. Não estou dizendo que isso esteja errado, mas a maneira que fiz foi show de horror! Eu DIZIA como se deu a história de amor dele, não MOSTRAVA. Leia esta parte:
“O problema era que me descobri tímido perto dela. Logo eu, o palhaço da turma, não conseguia formar uma frase decente quando falava com ela. Por duas vezes, Beatriz puxou assunto comigo. E eu, na primeira vez, gaguejei e tropecei parado de pé (sim, é possível tropeçar sem dar nenhum passo; pelo menos para mim foi); na segunda, não falei coisa com coisa, e ela torceu a cara para minhas frases desconexas. Depois disso, ela se afastou de mim. Vai ver achou que eu fosse maluco. E quem discordaria?
Tive pesadelos causados pelo seu distanciamento. Eu precisava tê-la ou não sobreviveria até a formatura. Dimas foi bem meu amigo nesta questão e continuou tentando me ajudar como podia. Graças aos esforços dele, fiz trabalho em grupo com ela, joguei queimada no seu time, e até estudei química em sua casa uma vez. Nada. Ela me via igual aos outros rapazes. E, para piorar, no início do segundo ano, Beatriz voltou das férias namorando um tal de Rodolfo Cícero, um otário de cabelão comprido, nariz de grego e cara de bobo.”
Muita coisa aconteceu nesses dois parágrafos, mas eu só narrei o acontecido, não despertei emoção no leitor. Um bom escritor conduziria o leitor a sentir tudo isso acima, em diálogos e cenas construídas que mostrassem o amor de Guilherme. O leitor tem que SENTIR o desespero do personagem, o batimento acelerado, não apenas saber como a coisa aconteceu e ponto final. E isso se dá por partes, em ritmo crescente e cadenciado, várias cenas, não numa narração monossilábica que lembra mais um relatório. Entendeu a diferença?
Isso tudo se o livro fosse um romance. Só que o livro NÃO ERA sobre o amor dos dois. Eu deveria ter me focado na história – por sinal uma história de justa entre Guilherme e o vilão -, mas o louco aqui escreveu um capítulo inteiro sobre como os dois pombinhos se conhecerem. Tentei colocar Nicolas Spark no meio de um livro do Harlan Coeben. Foram DEZOITO parágrafos!!! Se era necessário apenas saber que Guilherme amava Beatriz, então eu devia ter diluído essa informação.
Por exemplo: em uma conversa no carro, o Dimas poderia comentar sobre a noite em que deixou Guilherme bem pertinho da Beatriz enquanto faziam trabalho em grupo. Ponto. Nesse diálogo só, o leitor descobriria quatro coisas: que Dimas conhecia Guilherme e Beatriz desde o colégio; que Gui já amava Beatriz nessa época; que Dimas tinha ciência do amor dele por ela; e que Dimas era legal e se preocupava com os interesses do amigo. Duas linhas de diálogo, quatro mensagens!!!! Detalhe: o leitor perceberia as mensagens, pois o escritor não as diria. Conduzir o leitor dentro do acontecimento é arte; dizer o que aconteceu é saída fácil.
Tudo bem, seriam necessárias outras inserções para se ter a ideia completa do amor. Porém, em pequenas e bem colocadas inserções, o escritor faria o leitor PERCEBER esse amor. E desta maneira, picada e precisa de se induzir a uma conclusão, o escritor também não se desvirtuaria da história principal do livro. “Guilherme ama Beatriz” é apenas algo dito no papel, não traz emoção alguma.
Um mestre me disse uma vez que um livro é uma história só; se tem duas, então são dois livros. O amor do Guilherme por Beatriz era importante para a construção da história principal? Sim, era. Como nasceu esse amor desde o início era importante para a construção da história principal? Nem que a vaca tussa!!!



