Dizer Vs Mostrar

Cavoucando meus arquivos, encontrei a primeira versão de um livro que escrevi chamado “O Homem que Não Temia Morrer”. É um livro bem legal, tanto que irei reescrevê-lo. Só que história legal todo mundo tem; uma história bem contada, não. E definitivamente esse meu livro estava mal contado.

O erro que cometi (teve muitos) mais grosseiro aconteceu nos três primeiros capítulos. Foi mais ou menos assim: meu personagem saía de casa, encontrava a mulher da vida dele, e eu começava a escrever como eles se conhecerem, o romance todo, o primeiro beijo, blábláblá; depois eu voltava à cena, ele se despedia dela, andava, avistava o seu inimigo e pronto, história do inimigo, como ele veio parar na cidade, o que fez de ruim, blábláblá. Era assim, uma cena, corte, flashback, volta à cena, outro corte, flashback. Não estou dizendo que isso esteja errado, mas a maneira que fiz foi show de horror! Eu DIZIA como se deu a história de amor dele, não MOSTRAVA. Leia esta parte:

“O problema era que me descobri tímido perto dela. Logo eu, o palhaço da turma, não conseguia formar uma frase decente quando falava com ela. Por duas vezes, Beatriz puxou assunto comigo. E eu, na primeira vez, gaguejei e tropecei parado de pé (sim, é possível tropeçar sem dar nenhum passo; pelo menos para mim foi); na segunda, não falei coisa com coisa, e ela torceu a cara para minhas frases desconexas. Depois disso, ela se afastou de mim. Vai ver achou que eu fosse maluco. E quem discordaria?

Tive pesadelos causados pelo seu distanciamento. Eu precisava tê-la ou não sobreviveria até a formatura. Dimas foi bem meu amigo nesta questão e continuou tentando me ajudar como podia. Graças aos esforços dele, fiz trabalho em grupo com ela, joguei queimada no seu time, e até estudei química em sua casa uma vez. Nada. Ela me via igual aos outros rapazes. E, para piorar, no início do segundo ano, Beatriz voltou das férias namorando um tal de Rodolfo Cícero, um otário de cabelão comprido, nariz de grego e cara de bobo.”

Muita coisa aconteceu nesses dois parágrafos, mas eu só narrei o acontecido, não despertei emoção no leitor. Um bom escritor conduziria o leitor a sentir tudo isso acima, em diálogos e cenas construídas que mostrassem o amor de Guilherme. O leitor tem que SENTIR o desespero do personagem, o batimento acelerado, não apenas saber como a coisa aconteceu e ponto final. E isso se dá por partes, em ritmo crescente e cadenciado, várias cenas, não numa narração monossilábica que lembra mais um relatório. Entendeu a diferença?

Isso tudo se o livro fosse um romance. Só que o livro NÃO ERA sobre o amor dos dois. Eu deveria ter me focado na história – por sinal uma história de justa entre Guilherme e o vilão -, mas o louco aqui escreveu um capítulo inteiro sobre como os dois pombinhos se conhecerem. Tentei colocar Nicolas Spark no meio de um livro do Harlan Coeben. Foram DEZOITO parágrafos!!! Se era necessário apenas saber que Guilherme amava Beatriz, então eu devia ter diluído essa informação.

Por exemplo: em uma conversa no carro, o Dimas poderia comentar sobre a noite em que deixou Guilherme bem pertinho da Beatriz enquanto faziam trabalho em grupo. Ponto. Nesse diálogo só, o leitor descobriria quatro coisas: que Dimas conhecia Guilherme e Beatriz desde o colégio; que Gui já amava Beatriz nessa época; que Dimas tinha ciência do amor dele por ela; e que Dimas era legal e se preocupava com os interesses do amigo. Duas linhas de diálogo, quatro mensagens!!!! Detalhe: o leitor perceberia as mensagens, pois o escritor não as diria. Conduzir o leitor dentro do acontecimento é arte; dizer o que aconteceu é saída fácil.

Tudo bem, seriam necessárias outras inserções para se ter a ideia completa do amor. Porém, em pequenas e bem colocadas inserções, o escritor faria o leitor PERCEBER esse amor. E desta maneira, picada e precisa de se induzir a uma conclusão, o escritor também não se desvirtuaria da história principal do livro. “Guilherme ama Beatriz” é apenas algo dito no papel, não traz emoção alguma.

Um mestre me disse uma vez que um livro é uma história só; se tem duas, então são dois livros. O amor do Guilherme por Beatriz era importante para a construção da história principal? Sim, era. Como nasceu esse amor desde o início era importante para a construção da história principal? Nem que a vaca tussa!!!


“O Último Mágico” vem aí

Segue sinopse do meu próximo livro, AEEEEEE:

“É importante que saiba três coisas a respeito do que vou lhe contar. A primeira é que se trata de uma história de amor. Pode ser que a ação, os acontecimentos impressionantes e as revelações fantásticas confundam você; pensar assim seria errado. A segunda é que não prometo final feliz ou triste; afinal nenhum desfecho na vida termina cem por cento de um modo só. E a terceira é que você, irremediavelmente, duvidará da veracidade do que direi, sei que vai. Peço que mantenha a mente aberta e os paradigmas distantes. A história pode ser absurda e impossível, mas aconteceu de verdade com Michel Kelian e Bianca Muniz.”

A Policial Eleonora se envolve no caso do misterioso Jonas, um homem sem identidade achado ileso em um bar incendiado. Jonas revela que apenas ela poderá encontrar uma moça desaparecida chamada Bianca Muniz. Mas para isso, Eleonora terá que ouvir a história de vida da moça com o mágico Michel Kelian.

Bianca e Michel se conhecem aos oito anos de idade e tornam-se amigos inseparáveis. Com o tempo, a amizade se transforma em uma linda história de amor. Porém, a poucos meses de se casarem, Michel recebe de um velho mágico um legado impressionante e abandona Bianca sem maiores explicações. Volta ao Brasil cinco anos depois, como o guardião de um poder e um segredo tão assombroso que faz com que o governo tente liquidá-lo a todo custo. Bianca decide descobrir o que aconteceu com Michel nesses cinco anos, como ele pode ter se tornado um mágico tão bom e qual é o misterioso segredo que o governo alega ser capaz de destruir o mundo inteiro.

O Último Mágico é uma apaixonante história de amor, cheia de mistérios, intrigas e aventuras, que se transforma em uma guerra eletrizante nas ruas de São Paulo.

O amor é a maior de todas as mágicas. Mas será ele capaz de salvar o mundo?


Pausa para broncas

Uma pausa nas dicas para umas broncas.

Bronca 1: Amigo/amiga escritor amador, se você não lê livros nem tente escrevê-los. A maior fonte de saber para um escritor é ler muuuuuuito. Todas as dicas que eu estou lhe dando, bem como todo ensinamento que há de se ter sobre como escrever estão contidos nos livros que você lê. As técnicas estão lá, codificadas em uma história empolgante. Leia um livro como leitor E como escritor. Procure “achar” como o autor do teu livro favorito te seduziu. Nossa, o cara escreve de uma maneira tão fluente! Caramba, aqui ele me instigou pacas! Ahá, aqui começa a cena e aqui termina!

Faça perguntas e tente achar as respostas: Por que ele escreveu isso? Esta cena tem quê propósito? O que significa este detalhe? Por que ele encerrou o parágrafo nesta frase? E, principalmente, como é que ele me faz ter vontade de ler mais?

Recomendo muito que você leia o livro “Para Ler Como um Escritor”, de Francine Prose (editora Zahar). Ele fará uma lavagem na tua cabeça e transformará o leitor-empolgado que existe em você num leitor-escritor muito mais crítico.

Bronca 2: Amigo/amiga escritor amador, se você não souber português, vire contador. Não digo para você se tornar um revisor nem virar um mestre da gramática como o Pasquale. Passe um pente nem tão fino nos meus posts e pegará vários erros de português (confesso que não me esforço muito aqui. O blog é como o intervalo do meu dia). Mas conhecimento acima da média de pontuação, conjunção verbal, concordância nominal, pronomes, artigos e advérbios são necessários, pelo amor de Deus! A língua é tua ferramenta de TRABALHO!!! Oras, pois, domine-a! (ou se esforce para entendê-la, como eu faço).

Bronca 3: Amigo/amiga escritor amador, leia coisa boa ou só vai escrever porcaria. Não fique com dó de abandonar um livro chato ou mal escrito. Leia de bons a ótimos livros. Procure autores consagrados (não falo de autores clássicos) que escrevam do jeito que você gosta de escrever. Um bom livro é uma aula; um ruim, é você assistindo ao Zorra Total. História boa mal escrita também faz mal para a saúde. Melhor uma história que não é a tua praia, mas que seja bem escrita.

Eu ADORO Gabriel Garcia Marques, mas as histórias dele nada se parecem com as que invento. Leio-o porque é uma viagem de ida e volta ao paraíso. Mas nunca escreveria algo como Cem Anos de Solidão. Adoro Sidney Sheldon, mas Reverso da Medalha não tem um mago ou um alienígena. Então desfruto da leitura bem escrita, das cenas muito bem construídas, do ritmo gostoso e de uma história ­– que não se parece com meu estilo – extremamente bem contada. Acredite, você, escritor de livros de ficção cheio de porradas e vampiros, tem mais a aprender com Gabriel Garcia, Ken Follett, Mario Vargas ou Marcelo Rubens Paiva do que com aquele teu amigo escritor que fez um livro mó dez que lembra Star Wars com Batman e Velozes e Furiosos.

Bronca 4: Amigo/amiga escritor amador, se você tem que pescar palavras no dicionário para escrever então tá complicando teu texto. Sim, você pode e DEVE usar o dicionário, mas SÓ quando não encontrar uma palavra mais fácil para aquilo que quer dizer. Palavras fáceis que você usa corriqueiramente são melhores do que as difíceis, tanto para você como para teu pobre e futuro leitor. Nunca recorri ao dicionário para ler Marcelo Rubens Paiva ou Patrícia Melo, só por isso eles ganham estrelinhas a mais no meu conceito.

Bronca 5: Amigo/amiga escritor amador, leia autores nacionais, senão você estará estudando apenas bons TRADUTORES. Há ótimos tradutores no país, conheço vários, mas é óbvio que algo se perde na tradução. O que um autor quis dizer na língua dele não é exatamente o mesmo em português, e aí o tradutor tem que mudar um pouco aquela frase. Pegue, por exemplo, Crime e Castigo, do Dostoiéviski, de uma editora que o traduziu do francês, e outra (a excelente Editora 34) que o traduziu direto do russo, é quase outro livro!!!!

E, pelo AMOR de Deus, autor nacional é TÃO bom quanto o de qualquer país!!!! O preconceito (e ele nasce nas livrarias, que mal possuem estantes para autores nacionais, e nas editoras, que investem uma ninharia no autor de cá) tem que sumir! Pegue, por exemplo, a saga Amor e Sangue, da Nazarethe Fonseca, e compare com Diário de Vampiro. Vou ser ímpar aqui porque não gostei muito das duas histórias, mas há de convir que Nazarethe é tão boa (ou até melhor tecnicamente) do que L. J. Smith (opinião minha, sem pedras, por favor).

Um detalhe que humildemente admito: leio muito autor nacional, mas falo pouco deles porque a maioria tá ruim demais de técnica, até os autores publicados. Este ano li 14 obras nacionais, mas não os citei no Skoob, por exemplo, porque teria que dar uma estrela baixa, e aí já viu, né?! “Como assim você me deu apenas duas estrelas??? Ai, tá se achando…” – esses comentários encheriam meu Facebook. A técnica é difícil de aprender por causa da nossa cultura. Adoro Machado de Assis, ele tem seu valor merecido na história, mas eu o adoro agora, com 32 anos. Com doze anos de idade, Dom Casmurro e Vidas Secas, de Graciliano Ramos, assustaram-me TANTO que só fui ler meu primeiro livro com gosto aos 21 anos de idade (o de um certo bruxinho que nem famoso ainda era).

Dicas de livros nacionais muito bons que li este ano: 72 Horas para Morrer, Cursed City, A Batalha do Apocalipse, O Matador, Teia Negra, Sensitivos e Os Guardiões do Tempo. Dicas de livros que soube serem muito bons e que vou ler: A Casa de Ossos, Ponto Cego, Kôra 1 e 2, Blecaute, Acanãs, Amores Perigosos, Os Sete Selos, Dragões de Éter (os três livros), Filhos do Éden, O Centésimo em Roma e O Vento Norte.

Ufa!!! Esse post ficou grande!


Dicas para futuros escritores – Parte 3

Você já deve ter percebido que eu dou dicas de um tipo de história que não é do gosto de todos: livros que mais se parecem com um filme de Hollywood. Pelo menos é isso o que tento escrever e o que gosto de ler. Autoajuda, drama introspectivo, novela, religião, didático ou qualquer coisa que não dê para ser filmada pelo Spielberg segue outra linha de construção, que não sei qual é. Se você adora best-sellers americanos e detesta livros com parágrafos que precisam ser lidos dez vezes para ser entendido. Se tua praia são os livros em que as coisas acontecem rápido, no lugar de três capítulos dentro da cabeça do cara que chora porque perdeu a esposa, então aperte a barra de rolagem e siga lendo.

Ultimamente tenho recebido de escritores ainda não profissionais textos para eu dar meu parecer. Aviso que parecer é um serviço pelo qual se cobra, e eu não sou parecerista profissional. Mas se tô com tempo livre, abro o anexo e dou uma lida. A primeira coisa que noto é o excesso de nada sendo dito no livro. Cenas que existem por existir e que talvez façam sentido na cabeça do escritor (do leitor, sei que não faz).

Nada é igual a gordura. Eu começo queimando a gordura do meu roteiro.

Se leio uma cena que nada diz (Ex: o cara entra na sala, diz a muié como foi seu dia e depois sai para ver um amigo), eu digo para o escritor “jogue isso fora”. A primeira coisa que ouço dele é “mas esta cena colabora para a criação da personalidade do personagem” ou “lá na frente esta conversa fará sentido”. É aí que me dá vontade de dar um golpe de Kung Fu no sujeito.

Sobre a primeira resposta: personalidade tem que ser CAPTADA no decorrer da história, não dita. Se o personagem é arrogante, então MOSTRE com atitudes que ele é arrogante, em cenas que levem a narrativa para frente, que tenham propósito maior do que apenas mostrar a personalidade X do indivíduo. Por exemplo, mesma situação de antes: o cara entra em casa e diz a muié que seu maior inimigo saiu da cadeia. A muié pede ao marido que ele tome cuidado, mas o cara desdenha da ideia e sai de casa atrás do ex-detento babando por vingança. Na calçada, percebe-se que ele carrega uma faca de cozinha escondida na camisa.

Neste caso, a cena teve um propósito: a decisão de ir atrás do ex-detento. E foi dramatizada: ele saiu ARMADO. O leitor desejará saber como se dará o encontro. A cena – além do objetivo claro e necessário à trama – mostrou que o cara é arrogante (ele desdenhou o conselho da esposa) sem que tenha sido necessário dizer “ele é arrogante”. Mais para frente, quando chegarmos à construção das cenas, explicarei a diferença do que se diz e do que se mostra.

Segunda resposta (“lá na frente, esta conversa fará sentido”). Pois bem, meu amigo, minha amiga, então lá na frente você CITE brevemente que o cara X teve uma conversa com a muié Y e que ficou acertado o seguinte. Não precisa criar a cena antes que ela faça sentido, a não ser que a dita possua um objetivo CLARO, seja ele a resolução de um enigma ou o de intrigar o leitor.

Exemplo: o cara entra na sala, fala com a muié como foi seu dia e comenta que viu um menino estranho parado na frente de casa. A muié se assusta, mas nada diz. O homem sai para ver um amigo. Fim de cena. Mais para frente, ficará claro que aquela cena, até então sem propósito algum, foi o momento exato em que a esposa do cara teve certeza de que não era só ela quem via o fantasma-do-menino-amaldiçoado-que-quer-matar-todo-mundo. Capitou?!

Com essa ideia em mente, na hora de preencher os espaços entre A e B (ou entre 10% e 25%), tome cuidado para não criar acontecimentos gordurosos. Ao roteirizar os três capítulos para frente (post anterior) forre-os com cenas necessárias à história.

Mas como saber se a cena será necessária se eu não roteirizei tim-tim por tim-tim meu livro inteiro?

A maior parte da gordura só percebo na revisão, ou seja, quando terminei o livro. Eu, no entanto, consigo perceber olhando três capítulos à frente algumas gordurinhas. Faço o seguinte: roteirizo as cenas dos três capítulos. Volto e corto uma cena. Se ela, em conjunto com as outras, não fizer falta para a trama principal, então está fora.

Quando escrevi “A Grande Criação de Nicolas” o livro terminado ficou com 420 páginas (formato 16 por 23 cm). Voltei e testei cena a cena jogando-as fora. O que não fez falta, foi para o lixo. Acabou ficando com 286 páginas. Dormi feliz sabendo que cada cena nele, cada capítulo, tem um propósito claro na minha história.

Livro magrinho, mas com barriga-tanquinho e bíceps.

Ah, se você quer dicas sérias e boas de verdade sobre roteiro visite este blog maravilhoso: dicasderoteiro.com. Aí sim você vai aprender mais sobre o que falei até agora (o artigo de voz passiva Vs. voz ativa é muito bom!).


Dicas para futuros escritores – Parte 2

Muitos escritores profissionais não criam um roteiro do que vão escrever. Eles simplesmente se sentam diante de um teclado e deixam fluir. Vão sentindo a história e lhe dando vida. Outros usam lousas, post-its e fluxogramas gigantescos ocupando uma parede inteira da sala. Pesquisam e reúnem em pastas tudo que irão precisar. Destrincham todas as cenas e os objetivos de cada uma. E só então começam a escrever o livro.

Ambos estão certos porque escolheram a técnica que mais lhes conforta.

Eu utilizo um processo de roteiro diferente para cada tipo de livro. Mas a grosso-modo, faço o seguinte: primeiro o que foi dito no post anterior (vai lá dar uma lida). De posse das dez páginas, eu me sento e detalho os três próximos capítulos. Sim, só uns três. Divido-os em cenas e defino o objetivo de cada uma. Procuro, ao máximo, ser minucioso. Por exemplo, se a primeira cena do meu livro é a de um cara arrombando uma porta, escrevo isso: onde ele começa (atrás da porta), o que ele faz (arromba e entra no quarto) e o que ele encontra lá (um corpo, um assassino, uma carta sobre a mesa). Falaremos de cenas mais para frente, agora é roteiro. Elaborada esta primeira cena, caminho para a próxima e a próxima e a próxima. Tento definir onde termina um capítulo e começa o seguinte (geralmente com um gancho). Depois de uns três capítulos esquematizados (no Word, em tópicos, com bolinha e tudo mais), começo meu livro.

Escrito a primeira versão destes capítulos, dou uma revisada básica para reescrever o que ficou uma porcaria (revisão de verdade é mais para frente). Aí eu me sento, releio e tento “ouvir” o livro enquanto faço perguntas a ele. Será que ficou bom? Para onde estou indo tá legal? Forcei aqui ou ali? Tá verídico nesta parte? O personagem parece real? E mais uma dezena de perguntas. Conserto o que tem que consertar e roteirizo em detalhes mais três capítulos para frente. Faço isso até o final.

Deste modo, eu controlo a velocidade com que meu “filhinho” ganha vida, ajusto o que não previ no roteiro (para mim é impossível prever toda a história… para MIM, pois tem quem consiga) e vou ajeitando o volume da história (clímax, tensão, momento certo para solucionar as dúvidas do leitor). É como andar de carro. Sei para onde vou, vejo o que tem à minha frente (não o caminho inteiro) e conforme sinto o trânsito, decido se viro ou não numa esquina ou noutra. Claro, tenho que passar pelas paradas previamente definidas (lembra-se do A – - – F – J – - – - – N O – - R – - – Y – Z?) e chegar ao destino final, não importando o engarrafamento que enfrentei.

Resumindo: um livro inteiro em dez páginas e três capítulos detalhados por vez. Esse é o meu esquema para começar a escrever. Lembro que estas são táticas minhas. Pelo amor de Deus, tá longe de ser uma regra de como escrever um roteiro.

Voltando ao A – - – F – J – - – - – N O – - R – - – Y – Z, tente ser mais… geométrico que isso. Algo como:

  • 0% = criar interesse logo de cara.
  • 10% = já apresentado todos os personagens principais e noção clara do que se trata a história.
  • 25% = acontecimento importante e ponto sem volta para o personagem principal.
  • 50% = acontecimento bombástico e aceleração na história.
  • 75% = clímax, tensão, drama, virada inesperada, surto total!!!
  • 90% = Ai meu Deus, como esse livro vai acabar???
  • 100% = final mega-ultra-hiper-legal.

Pode dividir em mais partes, mas tente separá-las em intervalos regulares. Ah, e surpreenda, crie dramas, reviravoltas e acontecimentos inesperados (tudo previamente definido nas dez páginas, tá?!). Acelere, sempre acelere. Se nos primeiros 50% você explodiu três pontes e matou sete pessoas, nos outros 50% tem que explodir dois bairros e matar a população inteira de Itanhaém, no mínimo (ok, estou exagerando). O importante é que as bombas tenham um propósito. Por exemplo: se você decidiu que vai matar a esposa do protagonista lá pelos 40%, que isso seja importante na história como um todo, senão deixe ela viva ou faça do protagonista um cara solteiro.

Próxima parada: como eu queimo gordura.


Dicas para futuros escritores – Parte 1

“Se você sabe muito bem fazer uma coisa, cobre por ela”.

Eu me considero um bom escritor, mas passo largo de ser um bom professor para futuros escritores. Por isso as dicas aqui sairão de graça. Aviso que NÃO passarei tudo que aprendi dos meus professores porque eles sim merecem receber pelo que me ensinaram (James, Júlio, Adriana, Kyanja…). Os tópicos serão breves, sem aprofundamento. Na verdade, não tenho muita paciência para escrever textos didáticos (faço isso no meu serviço todos os dias, e já está de bom tamanho).

Mais para frente, por exemplo, escreverei sobre cena. O que aprendi encheria meio livro. Aqui, tomará alguns posts, nada mais. As minúcias de uma cena, sequelas, discurso direto e indireto livre, obstáculos, pontos de observação e tudo mais são de propriedade daquele que me ensinou. Não acho nada ético pegar o que paguei para aprender em detalhes e jogar aqui de graça. MAS eu vou sim te ensinar o que é cena e como montá-la, só que do meu jeito vapt-vupt.

Hoje a dica é: planta.

Um escritor amador é como o dono de uma casa que ele mandou construir. Ou seja, o cara olha para o terreno que comprou e vê tudo pronto na cabeça. Sorri à imaginação. Sonha com ele morando na casa, recebendo os amigos. Acha a coisa mais linda do mundo e… é só. Um escritor profissional é o engenheiro desta casa. Ele pensa nos tijolos, nos canos, na fiação, na fundação e na planta. O resultado é a casa, mas ele não ficou se empolgando com ela na cabeça enquanto a fazia.

A primeira e óbvia coisa a se fazer é a planta (claro que comprar o terreno vem antes, dããã, mas isso você já tem: tua cabeça). A planta é o esquema do teu livro, mostrando onde cada coisa vai ficar. O ideal é destrinchar detalhadamente todas as cenas. Falo de um roteiro completo, com tudo que acontecerá bem claro, objetivo e definido antes de se escrever a primeira frase. É assim que manda a cartilha… mas eu não consigo desta maneira.

Tentei em um dos meus livros escrever um roteiro detalhado, como me foi ensinado. Porém, na hora que comecei a escrever, o livro ganhou vida e deu pitacos. O que parecia verossímil e necessário no roteiro ficou esquisito posto em prática. Insisto: quanto mais completo o roteiro for, menos você se desvirtuará e fugirá da história.

Você, imagino, não é de Exatas. Seguir muuuuuito a risca as teorias de criar um roteiro extremamente detalhado – como dita alguns livros – irá roubar a magia que será teu livro ganhando vida. E é bom que ele ganhe vida, desde que você coloque nele o arreio e segure bem o cabresto.

Eu PRECISO saber muito bem o fim do meu livro antes de escrevê-lo. Não chego ao ponto de Jô Soares, que diz escrever o último capítulo antes do primeiro. Mas tenho que ter o fim pronto, o destino final. Em seguida, crio momentos-chaves do livro na minha cabeça, algo assim: A – - – F – J – - – - – N O – - R – - – Y – Z. As letras são os acontecimentos mais marcantes da história; os traços, as cenas a preencher que ainda não criei. Com isso na cabeça ou no bloco de anotações começo a desenhar a planta.

Tentei uma vez escrever um roteiro até o fim, separando todas as cenas em cada capítulo. Para mim, não deu certo. Mudei o esquema: criei um roteiro básico, na verdade uma sinopse bem grande do livro inteiro. A ideia aqui é você saber tudo que acontecerá antes de escrever. Se começar sem essa ideia pronta, o que deveria ter sido um policial poderá virar uma comédia lá pelo meio e um livro de terror ao final. Teu humor, o dia que teve, o filme que assistiu, sem roteiro, isso tudo irá te influenciar e invadir tua história; acredite, já cometi esse erro.

Conte a história do teu livro para alguém, tudo, mas falando, não escrevendo (a opinião das pessoas aqui não conta). Faça isso mais de uma vez, nem que seja diante do espelho. Depois de umas três vezes verbalizando a história completinha, perceberá que o que disse é o pré-roteiro do teu livro, a ideia pronta e viva. Aí sente e escreva o que contou. Aparecerá mais coisas, mais detalhes – tudo é importante nessa hora. Dará, talvez, umas dez, onze páginas. Muito mais que isso significa que teu livro tem história demais e você se perdeu; muito menos, que falta aprofundamento. Guarde estas dez páginas e vá para o cinema, namore. Videogame é bom nesta hora. Deixe-a maturar no esquecimento. Volte depois de alguns dias e a leia. Provavelmente pegará muita coisa sem sentido, afinal você está lendo sem aquela empolgação que surge quando inventa uma história. Mude o que tem que mudar, volte ao forno, coloque o timer para mais alguns dias e revise essas páginas de novo. Quando não houver mais mudanças a se fazer, então você tem o ESBOÇO da planta. Sim, esboço.

No próximo post desenharemos a planta, pelo menos do modo que eu faço.


Dicas para futuros escritores – introdução

Ainda passo longe de ser uma autoridade no que diz respeito a “como escrever um livro perfeito”, até porque livro perfeito não existe. O que existe são mestres mais gabaritados do que eu oferecendo assistência e cursos que valem cada centavo. James McSill e Júlio Rocha são dois destes mestres que cito. Mas li tanto, estudei (e estudo) tanto que talvez- quem-sabe-vá-saber eu possa dar algumas dicas aos novos escritores que lutam para conseguir uma editora.

Primero vale uma constatação. Das duas uma: ou você não consegue uma editora porque não obedece à risca as regras de envio de originais ou porque (desculpe dizer) você escreve mal. Sim, sorte de ser lido por um avaliador carinhoso e de bom humor naquele dia também conta, principalmente aqui no Brasil, o país dos “apadrinhamentos”. Mas tenha certeza de que todas as editoras buscam uma nova J. K. Rowling ou um novo André Vianco. Ou seja, elas procuram novos autores de talento que saibam escrever. Então por que teu original não seria lido? Ora, seria insanidade uma editora não ler o que recebe. Melhor dizendo, seria o mesmo que um time profissional não procurar um novo Neymar nas escolinhas de futebol ou uma gravadora não frequentar os barzinhos da cidade à caça de uma nova banda de Rock. Você, escritor de talento, terá sempre emprego se… souber escrever.

O problema é que talento para inventar história tem de monte. E isso é o que MENOS conta na realidade. Saber PASSAR a história é o que te diferenciará do escritor amador. Mas até aí aposto que você já sabia disso e provavelmente acredita que saiba passar a história melhor do que qualquer um.

Bem, primeira dica: teu ego é teu inimigo.

Quer ser escritor de verdade? Se você ainda não o é então caia na real: você NÃO é escritor, ainda… Se tua namorada ou namorado leu teu texto e o achou dez, assim como tua mãe e teus amigos, então você NÃO é um escritor. É apenas o contador de histórias da família. Se você lê teu texto e acha que tua história é melhor do que Harry Potter com Matrix e Senhor dos Anéis juntos e não percebeu que só você a entende, então, meu amigo, minha amiga, você NÃO é escritor, e sim um inventor de histórias que só ficam legais na tua cabeça imaginativa. Pode até virar um crítico, jamais um escritor consagrado. Mate teu ego, encha-se de humildade, ache-se um bostinha no início e estará no caminho certo de um futuro escritor profissional.

Segunda dica: como PASSAR a história É mais importante que a história em si.

E para isso, tem que estudar SEMPRE, como se faz em qualquer profissão. Há técnicas para se escrever, talento puro não lapidado só desvirtua. Já ouviu a premissa “99% de suor, 1% de inspiração”? Pois se trata de uma verdade irrevogável.

Saiba o seguinte: uma editora recebe centenas de originais, mas a maioria é terrível. Eu já li alguns e me arrepiei – até porque eu escrevia daquele jeito quando estava cru não faz muito tempo. Então elas têm que achar a pérola no monte de esterco que recebe, mas a editora não sabe o que é esterco e o que é pérola sem abrir o original. O tempo não muda para quem avalia. O dia tem 24 horas para os avaliadores também. Isso significa que se ele perder mais de cinco minutos num original, irá voltar tarde para casa ou testemunhará a pilha sobre a mesa se transformando em uma Torre de Babel. Então o que o avaliador faz? Lê um trecho do teu texto para saber se você sabe escrever. Esse é o filtro!!!! Se tua história é melhor do que Código da Vinci ou não nem será levado em conta! Crie o melhor mundo mágico que existe e encha-o de aventuras chocantes, reviravoltas, suspense, drama, sexo e humor. Se não souber encantar a pessoa que não tá nem aí pro teu mundo mágico cheio de coisas então jogue uma bomba apocalíptica neste mundo ou a reescreva.

Agora quando você receber um não de uma editora, saberá que não recusaram tua história, e sim a MANEIRA que você tentou passá-la, sem técnica, estudo ou conhecimento. Escrever é uma arte, como a pintura e a música. Mas tente pintar um quadro sem ter estudado as técnicas ou componha uma música sem conhecer os acordes e veja que “beleza” você produzirá.

Nos próximos posts, vou dar algumas dicas que irão melhorar o modo como você passa a história. Sim, de graça.


Desastre

Editora Leya

Ultimamente sou seleto ao comprar um livro. Para tê-lo, preciso ler uma resenha antes, ouvir opiniões e até mesmo estudar o autor. Só depois de um rigoroso filtro, o livro vai parar na minha estante de “para ler”. Há autores, no entanto, que dispensam filtros. Harlan Coeben, Tess Gerritsen, Carlos Ruiz Zafón e Dan Brown vão da pré-venda para minhas mãos sem que eu sequer saiba qual é a história.

Mas, às vezes, arrisco e compro um livro desconhecido sem os filtros. Grandes livros foram descobertos assim. Comprei A Sombra do Vento sem ler uma única opinião na Internet; assim como O Nome do Vento. Infelizmente de cinco livros comprados por impulso, quatro se mostram uma porcaria.

Não foi o caso de Desastre.

A orelha não faz jus ao tanto que o livro é bom. Eu tinha acabado de ler Os Magos (resenha logo abaixo) e peguei o livro porque ele é fininho. Seria o intervalo entre um ótimo livro e outro ótimo livro. Mas que intervalo! Desastre é mágico! Foi parar na parte da estante em que ficam os livros “Caramba! Que dez!”.

Difícil é explicar a história. Imagine que todas as qualidades, defeitos, pecados, características humanas fossem deuses. Sorte, Morte, Gula, Paixão, Destino, Fado, Carma, Raiva, Inveja, Boato… ufa! A lista é imensa! Pois bem, imagine que cada uma destas características fosse alguém que você vê na rua. Por exemplo: a Gula é um sujeito gordinho; a Vaidade, uma mulher esbelta e de roupas de grife; a Morte, um hipocondríaco de cabelos brancos e com luvas de borracha. Todos imortais e poderosos. Todos interferindo e moldado os rumos da humanidade.

Você acompanha o Fado, melhor, Fábio, seu nome mortal. Ele é o responsável por vigiar os rumos da maioria dos humanos que não terão lá um futuro brilhante (aqueles que possuem um bom futuro são seguidos por Destino, uma ninfomaníaca que se veste de vermelho e que transa com Fábio de tempos em tempos). Fábio não gosta muito de sua função, afinal os “seus” humanos só fazem besteira. Em um belo dia, ele conhece uma mortal chamada Sara, que está na Trilha de Destino, portanto ele não pode ver o futuro dela. Fábio se apaixona por ela, e é aí que o livro vai do hilário para o excepcional.

Nunca li um autor retratar de maneira tão crua, verdadeira e bem humorada (por vezes muito triste) a humanidade. É quase um tapa na nossa cara que, por sinal, nos faz rir. A obra de S. G. Browne é um achado filosófico, sociológico e muito bem escrito. Deveria ser obrigatório em cursos de sociologia e psicologia.

Opa! Falando assim, você pensará que se trata de um livro didático. Não é. Desastre é uma mistura muito bem feita de Neil Gaiman, O Guia do Mochileiro das Galáxias com (um pouco) de Percy Jackson. E o final… nossa! Surpreendente!

Leia o livro. Você irá chorar, rir e se emocionar. Só mesmo aos olhos de imortais para descobrirmos como somos patéticos, frágeis e, em contrapartida, seres encantadores.


Os Magos

Editora Amarilys

Acabei de ler Os Magos, de Lev Grossman.

O livro é dito como o Harry Potter para adultos. Em partes está certo. Tem uma escola de magia e você acompanha a vida de um dos alunos nos cinco anos de estudo. Há professores excêntricos, feitiços de nomes pomposos, casas diferentes para grupos de alunos e por aí vai. A única diferença é que da primeira à última frase nada no livro lembra Harry Potter. Nada.

Confundi?  Lev pegou Harry Potter e Nárnia (sim, com ovelhas falantes e tudo mais), bateu no liquidificador com uísque, pimenta e almíscar e usou o caldo para criar um livro extremamente original e adulto. Os Magos conta a história de Quentin Coldwater, um adolescente nerd e depressivo, convidado a ingressar em uma faculdade secreta de magia, a misteriosa Brakebills. Até aí, nada de original, mas retire as aventuras em passagens secretas e pistas em salões antigos e coloque angústias juvenis reais. Em vez de lobos gigantes de três cabeças, Quentin descobre no sótão da faculdade o amigo homossexual transando com um colega. No lugar de um Snape, você tem um professor banido da faculdade por ter dormido com uma das alunas e causado, não intencionalmente, o suicídio de outro aluno. E em vez de Grifinória, você é apresentado aos “Caras da Física”, um clubinho de alunos que passam horas bebendo vinho e transando entre si.

Sim, este é o nível. Apesar de dividido em quatro partes, o livro possui uma divisão muito clara: na primeira parte, os cinco anos de estudo (nada de um livro para cada ano); e na segunda, a aventura salgada, o amadurecimento e as dores da vida de um mago pós-formado. Quentin é um personagem único e maravilhoso, cheio de defeitos e idiossincrasias aparentes. Covarde, teimoso e depressivo. Raro alguém assim ser tão apaixonante. Quentin, te adoro, mas jamais seríamos amigos.

De certa maneira, o livro me fez sentir o mesmo de quando assisti aos filmes oitentistas O Clube dos Cinco e Conte Comigo. Pelo menos fiquei com o mesmo gosto amargo na boca, remoendo as cenas na cabeça que, de tão reais, chegam a angustiar. Isso de longe não quer dizer que o livro é ruim, ao contrário, é excepcional!  Mas deve ser lido por quem já passou pela juventude. Difícil um garoto de doze ou treze anos “sentir” o que Quentin passa.

O forte do livro é a jornada de formação do protagonista, mas tem muita aventura e ação, surpresas, suspense e mistério a resolver. Inclusive as cenas de batalha foram mais elaboradas do que as da magistral J. K. Rowling.

Duas ressalvas: uma para o tradutor, outra para o autor. Tradutor, não sei se foi erro teu ou do autor, mas a quantidade de “ele” e “ela” nos parágrafos chega a soluçar meus olhos. Autor, não entendi porque em terceira pessoa. O livro parece ter sido feito em primeira e mudado para terceira em alguma revisão. É só uma opinião, mas algumas frases brilhariam mais em primeira pessoa.